A Obra de Lorca é repleta de imagens simbólicas, de metáforas, de texturas, cores gris e cheiro de rosas e flor de laranjeira. Nela a natureza se faz presente plenamente, o valor da terra agregada à necessidade de renovação, de tornar a terra fértil e promissora, é latente, e nos obriga a lembrar que num mundo cada vez mais globalizado e voltado ao avanço de novas tecnologias, temos a nossa função como parte integral e integrante da natureza, condição que com freqüência tendemos a esquecer.
Especialmente em seus últimos textos, as, chamadas, Três Tragédias Rurais: “Bodas de Sangue”, “Yerma” e “A Casa de Bernarda Alba”, essa relação com os elementos da natureza, se estende pr’além do contato da personagem com o entorno. Nesses textos Lorca confirma a criação de sua própria cosmogonia, a natureza assume tal qual na mitologia de diversas culturas e até na tragédia grega, o status de Arquétipo encarnado em cada uma das personagens alí retratadas. Desde a sua estrutura textual podemos identificar nas Três Tragédias Rurais, o trato com elementos ritualísticos que relacionam o estado de maternidade, a figura icônica da MÃE e sua analogia simbólica com os quatro elementos: Terra, Água, Ar e Fogo como base dramática do desenrolar das ações.
Em “Um Rito de Mães, Rosas e Sangue (Lorca – Um ato poético em três quadros)”, pretendemos focar nesse aspecto Mitológico, Arquetípico e Ritual da Obra para dar corpo a nossa recriação estética, reforçando esse paralelo entre os três textos, “Bodas de Sangue”, “A Casa de Bernarda Alba e Yerma”, e os quatro elementos da natureza. Nesse contexto a MÃE é o foco central do ritual cênico, o elemento aglutinador das forças que regem a natureza, aqui ele está plena em sua condição de matriarca, geradora vital do universo em que está inserida, pois a ela cabe o poder da frutificação, da renovação e perpetuação.
Partiremos, assim, da figura cênica da MÃE que dita às regras do jogo cênico. A ela caberá a responsabilidade de condução da tragédia, do fatalismo que a persegue e a subjuga, ela concederá os direitos a vida ou a morte, ressaltando a força imagética, significados e mistérios contidos nesse modelo.
Trilhando por esse caminho da figura do feminino encarnado no arquétipo da MÃE em Lorca nos deparamos com uma realidade latente ainda hoje, em nosso país, sobre tudo nas regiões menos favorecidas, nas quais a MÃE é a força motriz e geradora da família. É essa figura que no mais das vezes assume as rédeas, do seu núcleo de influencias, são as suas ações que suscitam a possibilidade de perpetuação, e geram condições para novas formas de subsistência. Tal qual nos textos lorquianos e na Andaluzia recriada por eles, aqui, também esta figura é peça importante na máquina social que move as ideologias, as regras sociais e a economia das áreas mais “desaportadas”.
E ao nos depararmos com este paralelo, percebemos que é pelo conjunto dessas qualidades que a figura da MÃE surge como fonte inspiradora para o nosso processo criativo, pois nos coloca frente à realidade mais crua do nosso país, da nossa região. E seguindo esse pensamento, em nosso “Rito de Mães, Rosas e Sangue” pretendemos, a partir do entrecruzamento entre os valores Arquetípicos e mitológicos da MÃE, desenrolar o fio, sutil que liga a nossa gente e seus valores ao povo andaluz, e através dessa figura comum em sua condição e papel nos dois mundos buscaremos ampliar o nosso horizonte e a nossa visão, para que possamos cada vez mais aproximar o espectador do fato cênico. Inserindo o nosso mundo no texto dramático e recriando-o, também nós,em poesia viva, voraz e cortante.
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